Deus, por todos propalado não existe
Deus é a concepção forjado no tamanho da dor, do medo e da ignorância de cada um.
Página 013
Ao longo da história humana, a ideia de Deus foi construída, moldada, adaptada e difundida conforme as necessidades culturais, políticas, psicológicas e sociais de cada época. O Deus que hoje é amplamente propalado, com forma definida, personalidade humana, preferências morais específicas e interesses institucionais, não surgiu como uma revelação absoluta, mas como uma elaboração progressiva da mente humana em sua tentativa de explicar o desconhecido, controlar o medo e dar sentido à existência ou justificar e legitimar uma situação de poder.
Esse Deus popular, apresentado como um ser externo, antropomórfico, vigilante, julgador e interventor seletivo ou criador de tudo, reflete muito mais as características humanas do que uma realidade transcendente. Ele ama e odeia, pune e recompensa, escolhe povos, condena outros, exige obediência cega e se ofende com questionamentos. Tudo isso revela menos sobre um princípio universal e mais sobre projeções humanas de poder, autoridade e controle.
Quando se observa atentamente, percebe-se que esse Deus "por todos propalado" varia conforme a geografia, a cultura e o tempo histórico. Cada civilização criou sua própria imagem do divino, sempre alinhada aos seus valores, medos e estruturas de poder. Se esse Deus fosse uma entidade objetiva e absoluta, não assumiria tantas faces contraditórias. A multiplicidade de deuses, dogmas e verdades exclusivas revela que estamos diante de construções simbólicas, não de uma realidade única e incontestável.
Além disso, a institucionalização de Deus contribuiu para o seu distanciamento da experiência humana genuína. Igrejas, templos e sistemas religiosos passaram a reivindicar o monopólio do sagrado, transformando a espiritualidade em doutrina, a fé em obediência e o mistério em regras. Quando não em manipulação da fé e legitimar os sistemas de governos vigente. Deus deixou de ser uma experiência interior para se tornar um conceito imposto, muitas vezes utilizado para justificar guerras, desigualdades, opressões e exclusões. É demonstrado ao longo da História o quanto mataram semelhantes e em grande número, em nome de Deus e que toda a distopia é porque da nossa pouca fé.
O Deus propagado como juiz supremo também serve como mecanismo de terceirização da responsabilidade. Ao atribuir a ele o controle do destino, o ser humano abdica de sua autonomia, de sua ética consciente e de sua responsabilidade pelos próprios atos. "Foi vontade de Deus" passa a ser a explicação para injustiças, tragédias e privilégios, anulando a reflexão crítica e o compromisso com a transformação do mundo. Ou seja: Deus é uma concepção criada pelo tamanho da dor, da fé cega e da ignorância. É invocado como proteção, justificativas de manifestações, fatos e elementos não compreendido.
Sob uma análise mais profunda, percebe-se que esse Deus difundido funciona como um espelho das fragilidades humanas: o medo da morte, o pavor do vazio, a necessidade de sentido e a dificuldade de assumir a própria liberdade. Criar um ser supremo que tudo vê e tudo cria e controla é, em muitos casos, uma tentativa de escapar da angústia existencial que acompanha o fato de estarmos vivos sem garantias absolutas e da incompreensão da essência existencial.
Isso não significa negar o mistério da existência, a profundidade do universo ou a dimensão espiritual da vida. Pelo contrário. Significa negar apenas a caricatura divina que foi popularizada, simplificada e usada como instrumento de dominação. O Deus por todos propalado não existe porque ele é fruto de narrativas e concepções humanas, não de uma realidade transcendente verificável.
Talvez o erro não esteja em negar Deus, mas em procurar fora aquilo que sempre esteve dentro. O que muitos chamam de Deus pode ser compreendido como consciência, como princípio de vida, como energia, como ética interior, como inteligência universal ou como a própria capacidade humana de amar, criar e transformar. Quando Deus deixa de ser um personagem e passa a ser um estado de consciência do divino que há dentro de nós, a espiritualidade se liberta do medo e se aproxima da responsabilidade aproximando mais da compreensão do mecanismo da existência.
Nesse sentido, a negação do Deus não é um ato de descrença, mas de amadurecimento e consciência da essência da vida. É o reconhecimento de que não precisamos de um vigilante celestial para sermos éticos, nem de promessas pós-morte para vivermos com sentido. A vida, por si só, já é um chamado à consciência, à presença e à responsabilidade.
Assim, Deus não existe e que foi moldado para atender interesses humanos limitados. O que permanece é o mistério da existência, que não cabe em dogmas, não se curva a instituições e não pode ser capturado por palavras. E talvez seja justamente nesse silêncio, livre de imposições e incertezas, que o ser humano finalmente encontra a si mesmo e que faz parte da auto criação do universo o qual não precisou de um personagem criador mas que se fez em si mesmo.