No fio da Espada

A responsabilidade eterna pelo que construímos e pelo que destruímos


Na existência por diferente que somos e pensamos, mesmo em situações e ações opostas, não somo inimigos. Mas parte de um mesmo processo e propósito.



Página 021

A existência humana é marcada por uma característica inescapável: a responsabilidade. Não se trata apenas de uma responsabilidade social, jurídica ou moral no sentido convencional, mas de uma responsabilidade ontológica, profunda, inseparável do simples fato de existir. Somos eternamente responsáveis por aquilo que construímos e, da mesma forma, por aquilo que destruímos, seja no plano material, emocional, psicológico, individual e coletivo. Nada do que fazemos, pensamos ou escolhemos está isento de consequências, ainda que muitas delas não se revelem de imediato.

Cada gesto, palavra ou silêncio carrega uma força criadora ou destrutiva dependendo do conteúdo de suas gestões. Ao longo da vida, estamos constantemente edificando pontes ou erguendo muros, cultivando consciências ou alimentando ignorâncias, promovendo encontros ou aprofundando afastamentos. Mesmo quando acreditamos estar inertes, estamos escolhendo. A omissão, muitas vezes, é uma das formas mais sutis, e eficazes, de destruição. Não agir diante do que pode ser transformado também é uma decisão, e como tal, gera efeitos.

A ideia de que somos eternamente responsáveis não implica em um peso punitivo ou uma condenação perpétua, mas sim um chamado à consciência. Responsabilidade não deve ser confundida com culpa porque para a providência e a lei do amor não somos culpados pelo que fazemos. A responsabilidade liberta, determina a direção do aprendizado. Quando compreendemos que somos autores daquilo que construímos e corresponsáveis pelo que permitimos que se destrua, passamos a agir com maior lucidez, atenção e respeito pela vida em todas as suas manifestações.

Construímos não apenas casas, sistemas ou tecnologias, mas também narrativas, valores, crenças e formas de relacionamento. Construímos a nós mesmos diariamente, por meio das escolhas que fazemos e das ideias que sustentamos. Da mesma forma, destruímos quando negamos a dignidade do outro, quando reduzimos a complexidade da existência à visões simplistas, quando escolhemos o medo em vez do diálogo, a eliminação do outro ao invez da compreensão, a intolerância em vez da escuta e o acolhimento.

No entanto, essa responsabilidade não se limita ao indivíduo isolado. Vivemos em um campo coletivo de interdependência. Tudo o que somos e fazemos reverbera no outro, assim como tudo o que o outro faz nos afeta de alguma forma. A ilusão da separação sustenta a falsa crença de que podemos agir sem impacto, como se nossas ações estivessem confinadas a um espaço privado. Na realidade, estamos permanentemente conectados por laços visíveis e invisíveis entre todos os seres.

É nesse ponto que emerge uma reflexão essencial sobre as diferenças humanas. Somos diversos em pensamento, cultura, crença, linguagem, sensibilidade e compreensão da realidade. Em muitos aspectos, podemos ser radicalmente diferentes ou até aparentemente opostos. No entanto, essa diversidade não nos torna inimigos por natureza. O conflito surge quando transformamos a diferença em ameaça e o ponto de vista distinto em erro absoluto.

Cada ser humano enxerga o mundo a partir do lugar onde se encontra. Esse lugar é moldado por experiências, dores, aprendizados, condicionamentos e níveis distintos de consciência, ações e modos de procedimentos. Ninguém percebe a realidade de forma totalmente neutra ou universal. Não existem inseções. Todos interpretamos o mundo a partir de filtros internos e referenças do nosso próprio olhar ou narrativa. Reconhecer isso é um exercício de humildade, consciência e maturidade espiritual.

Quando compreendemos que cada pessoa possui seu próprio ponto de vista e entendimento, torna-se impossível sustentar a lógica de que entre nós seres humanos com ações opostas somos inimigo. O inimigo nasce da desumanização do outro, da recusa em reconhecê-lo como alguém que também está em processo. Diferença não é sinônimo de ameaça; oposição de ideias não equivale necessariamente a oposição de existência. Podemos discordar profundamente sem precisar anular ou destruir o outro. Para a sua luz brilhar não precisa apagar a do outro. Neste sentido, não precisamos aceitar, concordar ou reproduzir o que entendemos como prejudiciais ás nossas condições e que vá colocar em risco a nossa própria existência. Mas quando identificamos essas ações o que podemos fazer é lutarmos para transformá-las em algo pertinente e de acordo com a filosofia humanitária. Vê-lo apenas como inimigo, o que necessariamente exigiria atitudes de eliminação, colocaria um paradoxo mediante a providência ou a lei do amor, e que não resolveria a situação, apenas interromperia o processo do fluxo do aprendizado no desenvolvimento da consciência rumo ao propósito da existência.

Podemos odiar a ação monstruosa de um ser humano. Mas não podemos odiar o mesmo. Podemos odiar a marginalidade mas não o ser marginal. Podemos odiar o crime mas não o criminoso. Mesmo porque estão à mercê da manipulação e da tecedura da essência do jogo da vida. Podemos combater e lutar para transformar os atos, inclusive e acertadamente, aplicar a punição e a responsabilização. Ao devolver com uma ação capital, a cada um, nós colacaria, essencialmente, na mesma condição do mesmo. Agindo assim estaria compreendendo o que Jesus Cristo disse: "amar vossos inimigos".



Continua...

Página anterior Página seguinte