No fio da Espada

A Democracia Burguesa e o Encapsulamento de Ações Fascistas


Uma reflexão crítica sobre poder, aparência, controle e a falsa liberdade.



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Estamos vivendo sob a chamada democracia burguesa que apresenta-se, historicamente, como a forma política predominante das sociedades capitalistas modernas com denominação neo-liberalista. Ela se fundamenta em princípios como eleições periódicas, divisão formal dos poderes, liberdade de expressão e direitos civis. No entanto, por trás dessa arquitetura institucional aparentemente neutra e universal, esconde-se uma estrutura profundamente marcada pela desigualdade econômica, pela concentração de poder e pela manutenção dos privilégios de uma classe dominante.

A democracia burguesa não quer transformar radicalmente a sociedade, mas administrá-la dentro dos limites aceitáveis para a reprodução do capital, acumulação e lucros. Seu compromisso maior não é com a emancipação plena dos indivíduos, mas com a estabilidade do sistema econômico vigente. Dessa forma, ela permite a participação política, desde que essa participação não ameace os fundamentos da ordem estabelecida. É nesse contexto que se torna possível o encapsulamento de ações fascistas dentro de um regime formalmente democrático. O fascismo contemporâneo raramente se apresenta com as feições clássicas do passado, uniformes, golpes militares explícitos ou fechamento imediato do parlamento. Ele se reinventa, infiltra-se e adapta-se às regras do jogo institucional, utilizando a própria legalidade como escudo. Ocorre quando práticas autoritárias são normalizadas sob o discurso da lei, da ordem, da moralidade ou da segurança. Medidas de exceção tornam-se permanentes. A repressão seletiva é justificada como combate ao crime, ao "inimigo interno" ou à "ameaça ideológica". Direitos são relativizados, mas sempre em nome da proteção da democracia, criando um paradoxo perverso: viola-se a liberdade para supostamente defendê-la.

A democracia burguesa oferece o terreno fértil para esse processo justamente porque mantém uma separação estrutural entre igualdade formal e desigualdade material. Todos são iguais perante a lei, mas profundamente desiguais no acesso aos meios de comunicação, à justiça, à educação e à influência política. Essa assimetria permite que determinados grupos imponham narrativas dominantes, moldando a opinião pública e criminalizando dissensos como: quando ocupam um lugar político na sociedade fustigam o negacionismo, combatem a arte e os artistas, combatem as universidade e usam a mentira como arma principalmente pela dissiminação de fake news para descaracterizar e incriminar um adversário e satisfazerem seus interesses.

O fascismo encapsulado na democracia burguesa não precisa abolir eleições; basta esvaziá-las. Não precisa censurar abertamente; pode sufocar vozes por meio de perseguições jurídicas, pressões econômicas e campanhas de deslegitimação. Não precisa instaurar uma ditadura clássica; pode governar por meio do medo difuso, da polarização constante e da criação de inimigos simbólicos. Geralmente criam uma narrativa depressiativa sobre seus alvos, implementam divulgações de forma massiva a fim de convencer os espectadores e por fim desenvolvem ações de intervenções autoritárias e justificam que é uma ação para o bem de todos, liberdade de todos ou implantação da democracia.

Nesse modelo, o Estado passa a operar de forma ambígua. Para os setores privilegiados, ele garante proteção, benefícios e segurança jurídica. Para os grupos marginalizados, manifesta-se como aparato repressivo, punitivo e disciplinador. A democracia existe, mas é seletiva. A cidadania é formal, mas o exercício real dos direitos depende da posição social que cada indivíduo ocupa.

A retórica fascista não se assume como tal. Ela se disfarça de patriotismo, de defesa da família, de meritocracia ou de moralidade pública. Alimenta ressentimentos sociais e canaliza frustrações populares contra minorias, movimentos sociais ou qualquer grupo que questione a ordem vigente. Assim, o conflito estrutural entre capital e trabalho é ocultado, substituído por guerras culturais e identitárias cuidadosamente manipuladas.O fascismo não se apresenta: "Olha, eu sou o fascismo". mas como liberdade geralmente sobre o lema "Deus, Pátria e Família", embaralhando assim a religiosidade, o patriotismo e a família não respeitando o caráter laico das ações políticas do estado, minimizando o coletivo da sociedade e o patriotismo geralmente é tosco porque defendem geralmente os interesses da corrente a nível mundial independentemente das questões do próprio país.

A democracia burguesa, ao não enfrentar suas próprias contradições, acaba funcionando como uma vitrine democrática que legitima práticas profundamente antidemocráticas. O problema não está apenas nos excessos autoritários, mas na lógica estrutural que os permite e, muitas vezes, os incentiva. Quando a democracia se reduz à gestão técnica do poder e à defesa dos interesses de mercado, ela perde seu conteúdo emancipatório. Muitas vezes se manifesta no sistema jurídico. Leis são interpretadas de forma desigual, garantias constitucionais são flexibilizadas conforme a conveniência política, e o discurso da neutralidade institucional serve para ocultar decisões profundamente ideológicas. A legalidade, nesse contexto, deixa de ser instrumento de justiça e passa a ser ferramenta de dominação.

Outro elemento central desse processo é o controle simbólico. A cultura, a mídia e os espaços de produção de conhecimento tornam-se campos de disputa fundamentais. Ao monopolizar narrativas e enquadrar o debate público dentro de limites estreitos, o sistema impede que alternativas reais sejam sequer imaginadas. Ainda assim, é importante reconhecer que a democracia burguesa não é um bloco monolítico. Ela contém fissuras, contradições e espaços de resistência. Direitos conquistados, ainda que limitados, podem servir como ferramentas de luta e ampliação da consciência política. A questão central é não confundir esses espaços com a realização plena da democracia.


Continua...

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